À noite, em pleno Bairro Gótico, os incontornáveis cafés da Plaza Real com a polícia sempre visível, ali permaneciam constantemente animados e povoados com as ruelas circundantes cheias de surpresas, sempre com mais um bar, café, restaurante ou discoteca por descobrir.
Quem se deslocava de um lado para o outro, cruzava incessantemente a zona turística das Ramblas, muito citada pelos roteiros, que estava sempre lotada de gente, de performers a animar as ruas em troca de algumas moedas; de carteiristas; de esplanadas, mais e mais cafés, restaurantes para todas as bolsas, bancas de jornais e até gaiolas com pássaros e coelhos para vender.
Tinha gente a mais para ser confortável, mas durante o dia, um oásis de cores e cheiros vindo do mercado La Boqueria no meio da artéria com frutas quase florescentes, conferia - lhe um ar quase que apaziguador.
Ao pé do Museu de Arte Contemporânea local, e das casas de banho públicas mais asseadas da zona, numa zona ampla, voavam skaters, de um lado para o outro com aquele som característico dos saltos e das travagens a arrojar.
Assim se passaram umas belas tardes por entre litradas de Xibeca (cerveja local) compradas nas mercearias tradicionais das imediações, ou vendidas na rua à revelia das autoridades por ser proibido (o chamado botellon) sempre frescas e em lata por alguns marroquinos ou paquistaneses que estrategicamente por ali passavam com um sortido também de outras marcas.
Do roteiro boémio também faziam parte umas investidas a uma zona com muitas lojas de discos, e à tasca de culto catalã Champagneria. O vinho da casa, muito fresco, branco ou rosé, escorregava bem, havia toda uma variedade de petiscos à altura, por entre uma verdadeira hora de ponta ao fim da tarde, num estabelecimento que se torna minúsculo para acolher tanta gente sempre de pé, e onde um lugar ao balcão debaixo dos presuntos pendurados é garantia de zona vip.
Na praia, para disfarçar o consumo de álcool ao ar livre, comiam-se melancias fora de época. Naquele gesto, aparentemente saudável, escondia-se uma verdade muito intensa que consistia, ainda em casa, em injectar com uma seringa, muita vodka que seria absorvida pela fruta
"O truque" é um texto de Pedro Miguel, que para esta versão multimédia contou com os contributos de António Canejo (locução), Doctor Majick (música) e colectivo a9)))) (vídeo). Agradecimentos: 94 FM.
A nova Revista 365 já está na rua, e com novidades. A partir de agora passará a ser de distribuição gratuita! Para assinalar a mudança, fizeram um número especial, que é uma "espécie" de best of, com textos de Eduardo Pinto, Elmano Madaíl, Fernando Ribeiro, João Pereira Coutinho, José Luís Peixoto, Mário Bruno Pastor, Nuno Casimiro, Pedro Sena-Lino, valter hugo mãe e Vasco Barreto.
Em Leiria, podem resgatá-la nos seguintes locais: Praça Caffé, livraria Arquivo, livraria Boa Leitura, discoteca Alquimia, bar Cinema Paraíso e Biblioteca Municipal.
"Certa vez estava a ouvir Malcom X a falar na rádio. Explicava porque é que não se devia comer porco (...) dez anos mais tarde fui a um jantar em casa do Johnny Cash (...)sentámo-nos numa roda e cada compositor cantava uma canção e passava a guitarra ao seguinte. Normalmente faziam-se comentários do género «meu, disseste tudo em poucas linhas»(...) toquei a «Lay Lady Lay», e depois passei a guitarra ao Graham Nash, à espera de alguma resposta(...)«não comes porco, pois não?», perguntou Joe Carter."
Vieram todos mais ou menos a horas. Às nove, lá estavam à entrada do cinema, as fotos da praxe para o social, o evento que ninguém queria perder, ou pelo menos, que pouca gente interessada pudesse faltar.
O ambiente estava bom, para além do traje de gala, também era obrigatório sorrir. Á entrada, o senhor que visionava os convites, de costas curvadas, numa postura como quem diz “desculpe lá a maçada, mas sabe… hoje em dia os penetras estão cada vez mais descarados, e já só vêm pelo vinho!”.
Vieram todos mais ou menos a horas, menos a Leila, claro. A estúpida atrasava-se em todas as ocasiões, até no casamento da cunhada conseguiu chegar depois da noiva, para a fúria do namorado, irmão da desposada, padrinho nesse dia no altar. Foram só nove minutos de atraso, mas, e como dizia a avó, “deixá-lo!”.
Os perfumes acabados de assentar nas peles dos presentes, começavam a saltitar no ar, fazendo uma atmosfera elegante, embora enjoativa para a maior parte dos presentes, especialmente para a estudante que servia canapés em part-time, desde as nove, para ganhar uns trocos.
Vieram todos mais ou menos a horas, mas ninguém imagina o sacrifício que ele passou para ali chegar. Às nove da manhã, arrancou para a Anadia, onde entregou as provas de tecido com vista à nova colecção. Depois, numa rotunda, o GPS, que não olha a obstáculos, mandou-o por uma estrada que estava efectivamente cortada.
Não teve outro remédio senão ir à procura de uma alternativa enquanto o que o aparelho falava monocórdica e insistentemente, “faça inversão de marcha… agora!!!!” … “daqui a duzentos metros, faça inversão de marcha!!”
E ele a aguentar… tudo aquilo, como se não bastasse a parva da sócia, que, com o complexo de inferioridade, andava picada com ele, e não se cansava de dizer de nove em nove segundos “então e agora, o que é que vais fazer? Sabes o caminho? Estás a ir para onde agora? Não queres parar e perguntar?…”
Vieram todos mais ou menos a horas, sentaram-se na sala, as luzes diminuíram e a música começou. Eram nove músicos em palco. O vizinho de alguém que não queria perder a festa; o filho do senhor da bilheteira, que orgulhoso, espreitava o evento por uma porta secreta; a irmã da estúpida… perdão, da Leila, o amigo do namorado da parva, perdão… da estúpida… ai! Da Leila, que tocava também numa banda de heavy metal, a prima da estudante dos canapés, a irmã, o cozinheiro, o ladrão e o amante dela…
A festa foi linda, os homenageados saíram satisfeitos, e o GPS, que ficara ligado no porta-luvas do carro, cumpria lealmente a sua função, ao indicar para os candeeiros, o favor de fazerem inversão de marcha dali a trezentos metros e seguirem pela A9
"Billie Jean" and "Eleanor Rigby" by Caetano Veloso (bossa nova style)
Tava jogando sinuca Uma nega maluca Me apareceu Vinha com um filho no colo E dizia pro povo Que o filho era meu (CAETANO VELOSO - preâmbulo de Billy Jean)
No âmbito do convite feito ao Colectivo a9))) para a Gala do jornal Região de Leiria, apresenta-se na próxima sexta-feira no Teatro José Lúcio da Silva em Leiria, a estreia ao vivo do projecto de spoken word É SEXTA-FEIRA FOGE COMIGO.
a9))) - vídeo Cova - voz Doctor Majick - programações e sintetizador Pedro Miguel - texto e sintetizador
Habitava neste mundo, mas em certas ocasiões ia para outro lado, num sítio refundido e misterioso. As viagens de uma mente são sempre solitárias e… o resto da frase encontra-se nesse outro lado.
Ele sabia que a vida era feita de pequenos contra-sensos, esses conhecia-os bem, como por exemplo a sua recente descoberta em que notou que os agradecimentos nos livros, sítio onde a escrita se desenvolve, eram breves, ao passo que nos discos, falava-se de toda a gente e, por vezes mal cabiam num livro tão pequeno como o que acompanha a rodela musical.
Noutra zona da cidade de Barcelona, nas imediações do Passeig de Gracia, um café cubano fazia as delícias dos simpatizantes pelo ideal revolucionário ou simplesmente acalmava a secura de bastantes gargantas sedentas. Aspecto antigo, cerveja barata que se bebia pela garrafa, cheio de recordações nas paredes e a sempre e constante música de fundo, conferia-lhe um perfume Caribe, num ambiente muito envolvente e familiar.
O dia para vir embora chegou, a conta do vidro partido do carro resultante de uma tentativa de assalto também, e até sorriu ao verificar que o custo do arranjo aliado ao tempo em que a viatura passou na oficina, foi inferior ao que teria gasto num parque de estacionamento durante a estadia. O regresso a casa fez-se com algum gelo pelo caminho e foi preciso um reforço de óleo no motor do carro.
- Portugal não fica a caminho de coisa nenhuma - disse ele para a amiga que o decidiu acompanhar - um estrangeiro que cá vem, tem forçosamente de voltar para trás, como aqueles corredores dos 100 metros que correm, correm, mas no fim está um muro de esponja para os proteger e os mandar de volta. - Com o melodramatismo que te caracteriza, acho que tens razão! - disse ela com um lindo sorriso que fez com que ele sentisse uma enorme vontade de a beijar, mas não o fez.
O eterno retorno cumpria-se, assim como o regresso inevitável ao seu quotidiano, com todas as suas singularidades, histórias e algumas lágrimas, nem sempre de tristeza: na realidade algumas das vezes chorava dos olhos, apenas porque precisava de óculos para conduzir e ainda não tinha reparado.
Versão multimédia A versão multimédia de “O regresso”, texto de Pedro Miguel, conta com locução de Carlos Matos, música de Doctor Majick e imagem e realização de do colectivo a9)))). Agradecimentos: 94 FM
Depois de uma experiência bem sucedida em Setembro de 2008, com o nome Joelheiras 1 (a ter segunda edição a 28 de Setembro deste ano) o a9)))) decidiu avançar em direcção ao Rio Lis e apresentar as Braçadeiras.
Os portugueses BLACK BOMBAIM e BORN A LION serão a décima e décima primeira banda respectivamente a actuar no Fade In 2009. Será neste sábado, dia 13 de Junho, às 23 horas, no Beat Club, em Leiria.
Este blog retira destas eleições que nenhum político usa o cinto de segurança no banco de trás do carro, passam em frente à polícia, e não acontece nada.
Pôs-se a olhar para os prédios que rodeavam a estação de comboios de St Lazare e pareceram-lhe familiares. Estava a sair de Paris, mas aqueles edifícios eram iguais aos de Campanhã, no Porto. Muito altos, de cor desmaiada, sem vida, janelões enormes, como se fosse um rosto espantado, com os olhos abertos para cima. Deve ser das despedidas, pensou. A quantidade de emoções que por ali passavam todos os dias, devia ser tremenda, e após tantos anos, espalhavam-se pelas construções ali à volta, mais ou mais como aquelas coisas que ninguém sabe muito bem explicar, como isso dos cães ficarem com o rosto parecido com o do dono. Tinha sido um dia em cheio, fizera uns bons 20 kilómetros a pé, de mapa na mão, como um turista igual aos outros. Vira primeiro ao longe, entre prédios, a Torre Eiffel que ao primeiro relance lhe pareceu uma grua de umas quaisquer obras que por ali poderiam haver. Depois, mais de perto, lá se deixou render ás evidências. Era muito maior do que pensava, e era castanha. No jardim circundante um bébé fazia birra para comer aquelas coisas que lhes dão, coitados, até a mãe dizer num bom português. Se o David não comer tudo, não há pombos, não há passeios, não há nada, ouviu? Já a caminho do Louvre, à beira Sena, ainda deu um último olhar para se certificar da cor, e surgido do nada, lembrou-se que fora ali, nos anos 80, onde a banda Duran Duran, gravara um teledisco para a banda sonora do James Bond. Ao passar pelo Hôtel de Ville fez-lhe lembrar uma passagem de um livro de Juan José Milás que andava a ler, onde o narrador contava o dia em que tinha ido para Madrid com os irmãos e o pai, e este urinava no lavatório da pensão, com a desculpa de que todos o faziam, também. O vento levantava-se, e o cabelo grande punha-se à frente dos olhos a acenar com um punhado de cabelos brancos a fazer lembrar-lhe que já não era novo, mas o Centro Georges Pompidou era um regalo para os olhos e estava ali pelas imediações. Mais tarde, já a fazer tempo para o comboio, subiu até ao Moulin Rouge e só ali é que percebeu que moulin queria dizer moinho. A melancolia da estação de comboios forçou-o a tentar lembrar-se de uma canção que tinha escrito para uma rapariga. Como é que era?
Pedro Miguel Rouen, 6 de Maio de 2009
"DISCO BLUES"
Remember when we met At that wild disco night?... I was dancing like Michael Jackson You laugh and said: “alright!”
Then i had to leave And said just for fun, “Promise you don’t kiss Too many boys while I’m gone”
I don’t play with feelings When a spark is around I take it seriously You made it profound
I’m not your puppet I’m not your toy But hey, sometimes it’s true I’m just a boy
I’m not your puppet I’m not your toy sometimes it’s true I’m just a boy
So I’m here again Had hard work in the South, “Was that boy Just kissing your mouth?”
I don’t play with feelings When a spark is around I take it seriously You made it profound
I wanna take the great step Girl just tell me when I hope you can see That I’m just a man
Música e voz: Rodriguez (Born a Lion) Letra: Pedro Miguel
Presidente da Câmara de Pombal quer tratar a homossexualidade. O jornal regional Notícias do Centro escreve que Narciso Mota, do PSD, apontou a homossexualidade como uma doença e uma causa de violência, numa conferência organizada pela Associação de Pais e Educadores para a Primeira Infância